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/ VALOR ECONÔMICO / publicada em janeiro/2016

Crise e perspectivas negativas fazem executivos brasileiros deixarem o país

Lucia Costa, Diretora da STATO, fala sobre o assunto.

Em 2011, Camila Ferreira, 35, pensou em fazer um MBA na Espanha. A instituição escolhida era uma das mais respeitadas do mundo, o Iese, mas ela desistiu. "Não fui porque o Brasil estava crescendo", diz a executiva, que acabou mudando de emprego e se tornando, na época, gerente de mercado da Monsanto. "Optei por ficar para ter mais experiência."
O MBA, Camila acabou cursando em São Paulo, na unidade que a escola espanhola mantém no país, e em 2014 ela assumiu como CEO da Easy Taxi no Brasil. Pouco depois, Camila recebeu uma proposta tentadora: chefiar a operação do Groupon na região andina, que na prática inclui Colômbia, Peru e Panamá. Para isso teria que se mudar para a Colômbia, mas desta vez sair do país não foi um problema. "O cenário no Brasil hoje não é positivo como alguns anos atrás, então decidi ir", conta.
Claro que este não foi o único fator levado em conta. No cargo que ocupa desde fevereiro de 2015 em Bogotá, Camila tem a oportunidade de fazer praticamente a mesma coisa que fazia no Brasil, quando estava no comando da Easy Taxi, mas em outra cultura. "Vejo a possibilidade de desenvolver aspectos importantes de liderança", afirma. "Quando trabalhava em São Paulo, somente pelo tom de voz da s pessoas já dava para fazer uma leitura nas entrelinhas. Em outro país, você tem que desenvolver essa habilidade para se conectar com a cultura local e ser aceito", afirma.
Assim como Camila, outros profissionais brasileiros estão cada vez mais dispostos a aceitar uma oportunidade de trabalho no exterior. "Tenho visto muitos executivos indo para fora do Brasil, contratados principalmente por empresas que têm alguma ligação com o país", diz Adriana Prates, presidente da Dasein Executive Search. "Desde o resultado das eleições vemos que boa parte dos executivos brasileiros estão temerosos em relação ao futuro, o que acaba aumentando a disposição de morar em outro lugar", afirma Luis Fernando Martins, diretor da consultoria de recrutamento Hays.
Lucia Costa, diretora da área de transição de carreira da Stato, diz que, alguns anos atrás, a demanda era justamente oposta: estrangeiros queriam vir trabalhar aqui e era raro encontrar brasileiro que quisesse sair. "Quando a crise começou a se intensificar, vimos uma inversão."
Carlos Moura, 35, engrossa essa lista. Até outubro, ele era gerente de vendas e marketing da BMW no Brasil. Atento a oportunidades dentro da própria empresa, mas no exterior, candidatou­-se para a vaga de gerente de vendas e marketing da Rolls­-Royce no Reino Unido, onde está hoje. Apesar de os cargos terem o mesmo nome, Moura conquistou uma promoção ao deixar o Brasil. "Antes, minha responsabilidade era nacional. Agora sou gerente de uma área global, com possibilidade de resultado financeiro maior e equipe mais numerosa", diz.
Moura já pensava em sair do país há algum tempo. Quando ingressou na BMW, em 2008, trabalhava na Alemanha. Voltou ao Brasil, transferido pelo grupo, no ano seguinte. "Na época, a Europa estava em crise e o Brasil crescendo muito. Desse modo, fazia sentido retornar. Agora, acontece o contrário", enfatiza.
Além do cenário macroeconômico, pesou na decisão de Moura a possibilidade de crescimento profissional e questões pessoais, já que sua mulher é europeia. No Reino Unido, Moura acredita ter mais chances de se desenvolver neste momento, já que se trata de um mercado mais maduro, que impõe novos desafios à carreira. "A atenção ao detalhe precisa ser maior para entregar resultados", diz.
Conseguir um emprego no exterior, no entanto, pode não ser tão simples. Martins, da Hays, diz que a possibilidade é maior quando o profissional já trabalha em uma multinacional e se candidata a uma transferência. Mas buscar um trabalho em outra empresa ou uma recolocação caso esteja desempregado pode ser extremamente difícil, principalmente por conta do visto. "É raro encontrar empresas que assumam esse trâmite", diz.
Diretor regional para as Américas da MSD Saúde Animal, Leonardo Burcius, 36, está trabalhando nos Estados Unidos desde julho. Antes, sua sede era o escritório da multinacional em São Paulo. Assim como Moura, da Rolls-Royce, Burcius estava de olho em uma oportunidade internacional há algum tempo. A solução foi se candidatar a uma vaga aberta no exterior pela empresa na qual ele já trabalhava. "Sempre tive vontade de ter uma experiência fora, mas sabia que deveria passar por outras funções no Brasil e apresentar uma excelente performance antes disso", diz o executivo, que está na MSD desde 2003.
O que atraiu Burcius na nova função foi a possibilidade de trabalhar com mercados diversos e, ao mesmo tempo, fazer parte do processo de decisões estratégicas globais da empresa. "Trabalho hoje com países que têm grandes operações, como Estados Unidos, Brasil, Canadá e México, bem como com países onde temos equipes menores, mas com oportunidades de crescimento e desenvolvimento no setor, como Chile, Argentina, Colômbia e Peru. Isso é extremamente empolgante", afirma.
Odair Castro, gerente de recursos humanos da MSD Saúde Animal, diz observar um interesse crescente dos brasileiros em oportunidades na MSD no exterior. "Hoje a unidade brasileira é a maior exportadora de talentos de toda a companhia", diz Castro. Ele afirma que todos os funcionários têm acesso às posições abertas pela empresa no mundo e que, para se candidatar, basta preencher os pré­-requisitos da função.
No caso de Burcius, sua remuneração aumentou com a transferência para o exterior, porque ele saiu de uma função gerencial e assumiu uma posição de diretor. Mas os headhunters ressaltam que nem sempre há ganhos financeiros para quem vai trabalhar fora, pois "os salários não são baixos no Brasil", diz Lucia. Mas, como ela mesma ressalva, o câmbio alavancou os rendimentos em dólar e em euro, o que faz alguns pacotes ofertados no exterior serem mais atrativos. É preciso levar em conta também o custo de vida, que pode aumentar ou diminuir, na hora de tomar a decisão.
De qualquer forma, Lucia afirma que o brasileiro que pretende sair do país geralmente está mais preocupado em se desenvolver profissionalmente e obter mais qualidade de vida. "O executivo enxerga um lugar melhor para criar seus filhos, para que possam fazer escolhas mais abrangentes no futuro", diz. Martins, da Hays, ressalta que em alguns casos há até mesmo queda no salário de quem vai embora. "Alguns aceitam diminuir o pacote de remuneração porque colocam na balança o bem-­estar e a segurança", diz.