mídia e artigos

/ FOLHA DE SÃO PAULO / publicada em janeiro/2015

Crise hídrica aquece carreiras ligadas à gestão de recursos naturais

A crise hídrica, que solapou o nível dos mananciais do Sudeste, rendeu ao biólogo Jonas Vitti um dos maiores desafios de sua carreira.

A crise hídrica, que solapou o nível dos mananciais do Sudeste, rendeu ao biólogo Jonas Vitti um dos maiores desafios de sua carreira.

Vitti é gerente ambiental na fábrica Suzano, com sede em São Paulo, e trabalha num segmento que usa vultosos volumes de água para existir: o de papel e celulose.

Em Limeira (151 km de São Paulo), o biólogo criou um plano emergencial, no ano passado, para que aquela unidade da fábrica seguisse funcionando, apesar da seca.

"A vazão do rio Piracicaba caiu muito, e a água que conseguíamos captar era quase esgoto. Precisamos gastar mais produto químico para manter a produção", diz.

No meio de um grande problema, um cenário favorável é esse que Vitti ilustra: profissionais ligados à gestão dos recursos hídricos estão em alta no mercado.

O aprofundamento da crise de abastecimento no Sudeste e a busca de respostas para grandes desafios do setor manterão aquecida a demanda por profissionais dessa área, dizem especialistas.

"No país, ainda faltam recursos humanos capazes de dominar a extensa legislação hídrica, os contratos, as concessões. Sem formação, ninguém sobrevive nessa área", diz Ana Lia de Castro, diretora do Sindcon (sindicato das concessionárias privadas de serviços de água e esgoto).

A pedido da Folha, três das maiores empresas de recrutamento do país listaram as "carreiras da água" que estarão em ascensão na próxima década na iniciativa privada.

São posições como gerente de produção industrial, especialista de projetos, engenheiro de qualidade e meio ambiente e gerente de sustentabilidade, entre outros.

Os salários variam de R$ 6.ooo a R$ 35 mil –dependendo da formação e da comprovação da experiência.

"Não estamos falando em modismo de mercado. O setor possui desafios do tamanho do Brasil, como distribuir água potável e tratar 100% do esgoto urbano. Isso demanda tempo e gente especializada", diz Aloisio Buoro, presidente da recrutadora Stato.

"Todas essas carreiras partem da formação em engenharia civil ou em áreas de meio ambiente. Para trabalhar com recursos hídricos, o profissional terá que fazer uma pós em hidrologia", afirma o headhunter da recrutadora Hays, Thiago Sebben.

Também terá vez quem se especializar em práticas de reúso de água.

"São esses profissionais que criam maneiras de reaproveitar o líquido já utilizado, diminuindo o consumo total nos serviços públicos", diz o diretor da recrutadora Asap, Juliano Ballarotti.

No mercado, a falta de mão de obra especializada na área já é sentida. Na Enops, que presta serviços de água e esgoto a concessionárias, engenheiros recém-formados são capacitados dentro da própria empresa. "Não estamos esperando que eles primeiro façam pós para depois trabalharem aqui. A demanda é grande, e o treinamento interno tem dado conta", diz o diretor, Alexandre Lopes.

FORMAÇÃO

As maiores universidades federais têm pós-graduação em recursos hídricos.

A Capes (agência do governo que avalia a pós) prevê neste ano, em parceria com a ANA (Agência Nacional de Águas), a criação de um mestrado profissional de nível nacional em recursos hídricos.

"Além das melhores universidades daqui, vamos fazer parcerias com instituições de Israel e do Arizona (EUA), que têm expertise nessa área", diz o presidente da Capes, Jorge Guimarães.

Em Limeira, Vitti continua planejando. "A crise não terminou. Vamos reaproveitar parte da água que não era usada. Isso trará redução de 20% no consumo diário."