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/ ÉPOCA NEGÓCIOS / publicada em setembro/2015

Impeachment por baixa popularidade "Não faz o menor sentido", diz Bresser-Pereira

Impeachment por impopularidade ou por falta de habilidade em governar não é uma alternativa. Para o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro da Fazenda, é preciso respeitar que a presidente Dilma Rousseff foi eleita democraticamente. Ele e o professor e historiador Leandro Karnal participaram nesta terça-feira (22/09) do primeiro Café & Diálogo da consultoria de recrutamento de executivos Stato, que discutiu "A ética e o Brasil".

"Qual a natureza real da crise brasileira? Posso pensar que é moral, econômica e política. Diria que é de tudo um pouco. Mas gostaria de defender uma tese: não temos realmente uma crise moral", afirmou Bresser-Pereira. O que aconteceu é que descobriu-se uma corrupção de alta intensidade na Petrobras, envolvendo políticos e empresas. Mas essa corrupção é velha, sabemos que sempre existiu no Brasil inteiro. De repente, o Estado acaba com a ideia de impunidade para classes dominantes e começa a processar e colocar na cadeia as pessoas. Isso é uma crise moral. Temos é um problema ético sendo resolvido agora pelo poder judiciário — que, então, causa uma crise política."

Para o economista, "não acho que faz o menor sentido" falar em tirar a presidente do poder. "A gente faz impeachment de Collor. A gente faz impeachment de gente que cometeu um crime, e todo mundo sabe que cometeu. Agora, pensar em impeachment para uma pessoa que tem baixa popularidade ou que nós achamos que não governa bem... Eu acho que a dona Dilma não governa muito bem, não. Mas é uma mulher digna e respeitável. E a democracia vale, ela foi eleita. Estou convencido de que não haverá impeachment nenhum. O Brasil é uma democracia consolidada, de forma que teremos juízo nesse ponto."

No caso da crise econômica, Bresser-Pereira diz que Dilma pode até ser, em parte, responsável, mas não é a única. "É uma crise cíclica do capitalismo, que teve como causa fundamental a queda violenta no preços das commodities que o Brasil exporta — especialmente o minério de ferro e a soja." A crise na Petrobras e a dívida que a população acumulou nos últimos, com aumento da renda e de crédito, foram outros fatores. Para o economista, Dilma, chegou ao governo com "uma missão impossível". Por um motivo simples, diz ele: a economia já não crescia, trata-se somente do boom das commodities.

Leandro Karnal, por sua vez, diz ser difícil saber o impacto que um impeachment teria sobre o país. "São questões muito complicadas, o país paga um preço alto", afirma. Para ele, há um grande custo em ambos os cenários: no impeachment e em manter o governo que não consegue governar. "Só espero que a saída não seja do terminal 3 do Aeroporto de Cumbica." O professor defende que a Operação Lava Jato, que investiga o esquema de proprinas dentro da Petrobras, criou um debate importante sobre corrupção. E isso é algo que só é possível em uma democracia. "Ditadura cria opacidade e opacidade ajuda a corrupção", diz Karnal. "Vivemos um grande avanço democrático."

Ética e responsabilidade

Os professores discutiram ainda a importância debater ética dentro das empresas. "Como vivemos em uma velocidade enorme, perdemos a referência. E essa velocidade acentua o nosso individualismo", diz Karnal. Ele citou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman para defender que entramos em uma "era de incerteza", com a dissolução de fronteiras e o relativismo de valores. Em razão disso, o único ponto que une a sociedade no chamado "mundo líquido" é consumo.

"O principal valor abalado hoje, principalmente no Brasil, é a ética", diz Karnal. "Vivemos a sensação de naufrágio ético dos poderes públicos." Segundo ele, sem ética não há diálogo, como na Síria. "A falta de ética é o fim da civilização. A Síria é um lugar onde o diálogo e a ética fracassaram." É preciso, como Mahatma Gandhi já aconselhava, ser a transformação que se quer ver no mundo, diz Karnal.

Segundo ele, praticar ética implica tomar a responsabilidade para si — colocar o "eu" no processo. Executivos tendem a perguntar em reuniões "Por que essa empresa está assim?", como se não tivessem participação no que acontece. As pessoas costumam tirar seu "eu". E pior: vivem uma inversão de valores no que se refere à ética. O filósofo usou como exemplo o ex-CEO da Apple Steve Jobs. É uma figura que se orgulhava de cometer infrações éticas — e é ainda hoje admirado por isso. 

"O desafio que temos diante de nós é o de fazer de novo a comunicação, voltar a ouvir os outros, e voltar a dizer de uma forma muito clara e definida que 'o certo é o certo, o errado é o errado'. Não precisa de muito código ou debate, precisamos de mecanismos. O que se chamava antes de vergonha na cara, hoje se chama compliance. Esta é a regra. Se você não se adapta, aqui não é o seu lugar."

Patrícia Epperlein, presidente da consultoria Stato, enfatiza que é um "momento muito propício" para se debater ética dentro das empresas. "Primeiro, porque ética se aplica não só na economia, mas nas empresas. Para ser um bom executivo, é preciso pensar nisso o tempo todo. São nas pequenas coisas que devemos tomar cuidado", diz a executiva. "Falamos muito no 'jeitinho brasileiro', mas ele pode ter a ver com fazer algo que não está muto no caminho certo. Estamos em um momento em que temos de refletir muito. Existem muitos profissionais de sucesso que não precisaram cortar o caminho, dar o 'jeitinho', para chegar onde chegaram."